Hoje vou contar para vocês o momento mais difícil que já passei na minha profissão…

Acredito que já tenha acontecido quase tudo comigo durante esses 30 anos como cerimonialista. O momento mais difícil e delicado com certeza foi uma morte, sim, uma morte no casamento.

Eu estava fazendo um casamento para aproximadamente 850 convidados, em uma fazenda, bem depois de búzios.

Este local era um pouco complicado, em questões de estrutura. O estacionamento era na parte baixa do terreno, acima a casa, e ainda uma grande escadaria que dava em um platô, onde montamos a festa toda.

No momento em que a noiva ia entrar na cerimônia, começou a chuviscar… tivemos que remontar o altar na parte coberta, mas até ai tudo bem… como a pista era em um local bem alto tinha uma vista linda, onde era possível até ver as vaquinhas pastando lá embaixo. Tudo correu super bem.

Após a cerimônia, peguei a minha equipe para retirar o altar, para que pudéssemos organizar a fila dos cumprimentos sem fazer muito tumulto. Naquela época posicionávamos os noivos e a família de modo a receber os cumprimentos por todos os convidados em fila. A avó do noivo foi no sentido contrário da fila, cumprimentou os noivos e em seguida se sentou.

Neste momento fui até a casa para checar se logística estacionamento x festa estava funcionando bem, e nessa hora a minha filha Laura, que estava começando a trabalhar comigo, veio na minha direção para avisar que a avó do noivo estava passando mal.

Então abri um quarto da casa, que tínhamos deixado de stand-by, para recebê-la.

 



 

Os sobrinhos estavam trazendo a Sra. sentada na cadeira, já que o caminho era longo e a escadaria enorme, mas a cadeira não ajudou muito e tiveram dificuldade. Rapidamente meu filho Fernando, que na época devia ter 17 anos, fez uma cena de filme, a pegou no colo como se fosse leve e subiu as escadas rapidamente até o quarto. A deitamos e fui chamar o médico da ambulância. Quando não existe hospital disponível em um raio de 20km, costumo colocar uma ambulância. Hoje em dia, ao menos no Rio, é obrigatório ter uma ambulância presente em eventos à partir de 2oo pessoas. Não confiei muito no médico, que parecia recém formado e pouco experiente, então pedi que chamassem um amigo médico, o Telles, que estava na festa, para auxiliar.

Assim que o Telles chegou, pedi para a família se retirar, para dar mais espaço para os médicos atenderem da melhor forma possível. Então no quarto fiquei eu, o médico da ambulância, o Telles, e o neto dela. E a senhora, claro. Telles a examinou, virou para mim e falou: “Thais, ela está morta”. E perguntei de imediato: “Como assim morta? Não brinca.” Olhei rapidamente para o neto, com uma cara de pânico. Ele também me olhou e teve uma reação maravilhosa: “Vovó morreu na alegria e na alegria vamos continuar. Dá um jeito nessa situação enquanto eu vou disfarçar a família.”

Comecei a pensar no que eu deveria fazer… como que se dá um jeito em uma senhora morta dentro de uma festa de casamento? Pensei, vou mandar para o hospital, vou pedir para o médico dizer que ela morreu a caminho do hospital. Desta forma eu teria tempo para organizar um transporte para pegá-la no hospital para levá-la para o Rio. Perguntei para o neto para onde deveríamos levá-la e ele falou que era para o Caju. Então rapidamente liguei para o Caju para separar uma capela, e como havia muito barulho ao fundo, por conta da festa, o pessoal do cemitério achou que eu estava passando trote… Expliquei a situação e acordamos tudo.

Foi uma situação BEM complicada. Ao mesmo tempo em que eu estava tentando resolver a situação da avó do noivo, seu funeral, eu também estava organizando o coquetel, entrada dos noivos e fotos.

Para completar a minha filha, com 14 anos na época, nunca havia visto ninguém morto, então começou a falar repetidamente: “a velhinha morreu, a velhinha morreu, a velhinha morreu…”. Para a notícia não se espalhar a coloquei na cozinha e pedi para nosso Chef, Demar, ficar com ela e não deixá-la sair de jeito nenhum, inclusive que a colocasse para descascar batata, se fosse o caso.

Voltei à festa e aí começaram as perguntas “Ela está melhor? Como ela está se sentindo?”. Sem pensar duas vezes respondi: “Ela está bem. Estava com a pressão muito alta, por conta do calor, então a encaminhamos para o hospital para tomar um soro”. E por este caminho segui até o final, mais precisamente das duas da tarde à meia noite.

Uma colunista social da época chegou até mim e disse que sabia que a Sra. tinha falecido. Perguntei como ela tinha descoberto e ela disse que jornalista sabe de tudo. E eu respondi “Se jornalista sabe de tudo, deve saber a hora de ficar calada”. Ela nunca mais mencionou meu nome em nenhuma matéria, mesmo que o casamento tivesse sido organizado por mim.

Em um determinado momento minha cliente, a noiva, veio na minha direção e perguntou porque eu estava com uma feição triste, respondi que havia ficado chateada com a chuva durante a cerimônia, ela me confortou falando que havia sido linda. Mal sabia ela o verdadeiro motivo…

Precisei ir embora da festa antes da minha equipe, porque eu tinha que organizar uma festa de aniversário de 80 anos no Rio, no dia seguinte, que começava com uma missa na Santa Ignez às 10h e depois seguia para um almoço na Villa Riso. Então me encaminhei para ir embora à meia noite e a mãe do noivo quis vir no mesmo carro, com a ideia de buscar a mãe no hospital e voltar para o Rio. Antes de entrar no carro chamei uma prima e expliquei todo o ocorrido, que a senhora não estava no hospital e sim no Caju, que ela havia falecido mais cedo no quarto e que o neto havia me pedido para não contar à família.

Foi horrível! Infelizmente não pude ir ao enterro no dia seguinte por conta da festa.

Na quarta-feira seguinte, a mãe do noivo, filha da senhora que faleceu, ligou para o escritório. Fiquei nervosa, eu não sabia como atender, nem o que iria falar para ela… afinal eu havia literalmente mentido para ela o dia inteiro! Mas, atendi, e ela foi uma querida. Muito religiosa me falou que havia refletido muito sobre tudo, que havia sido o dia mais feliz e o mais triste da vida dela e que ela entendia o quão difícil havia sido a minha situação. Tinha consciência que se eu contasse a verdade a festa iria acabar logo no inicio. Se as pessoas soubessem, por questões de respeito a festa não poderia continuar. Sua mãe era uma pessoa muito alegre, muito querida e amada por todos. Então ao final me agradeceu.

No sábado seguinte, na missa de 7 dia, eu também não pude ir, por conta de outro casamento, mas rezei muito por essa avó tão querida.

Esta foi uma situação MUITO difícil e MUITO complicada que conseguiu acabar da melhor maneira possível.

 

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4 comentários “O momento mais difícil da carreira da Thais de Carvalho Dias

  1. Realmente uma saída, com autorização claro de uma pessoa da família, de um Cerimonialista capaz de uma postura em momentos difíceis. O profissional falou mais alto não deixando o emocional tomar conta da situação. Um maravilhoso exemplo de superação!

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  2. Thais, me lembro muito bem desse dia e desse evento, foi uma montagem muito linda e ao mesmo tempo muito triste e eu naquela época indo fazer o big toldo com pé quebrado, essa festa gerou muita história para contarmos. Um dia vamos fazer um livro só dos bastidores dos eventos. Parabéns pelo profissionalismo. Bjs

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  3. Thaís, creio que foi um dos piores momentos que passou na sua vida de Cerimonialista, você é incrível mesmo. Estou adorando o Case-me… parabéns para Laura! Bjs ??

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